"Não se deve perder tempo com os estranhamentos, com os gostos amalucados, com os diz que diz, que aumentam o que é pequeno ou agigantam o que nem sequer existiu.
Quando perdemos tempo com sentenças promulgadas por quem não de direito
ou quando contraímos as sobrancelhas, sobressaltados por medos que nem virão,
perdemos uma qualidade raríssima, que é a de ver a poética de dentro da tenda
do amor.
Damos cor à vida. Incendiamos de fogo nossa existência quando não nos
perdemos nos risinhos falsos dos que, por medo, invejam. A experiência da dor
que vem da inveja é horrível porque penetra no mundo pantanoso da injustiça. Sofremos
por sermos mal compreendidos. Sofremos porque os olhares que nos perseguiram
impiedosamente estavam afetados de uma doença cruel e mesquinha que cega as
pupilas da verdade. São prematuros os dizeres que desconhecem o essencial. Fofocas,
inverdades, crueldades da palavra, armas aparentemente brandas que destroem com
vagar, ou ao menos tentam, nossos sonhos. Não temos o poder de dominar o que
pensamos. Há muita presença indesejada que habita nossa mente. Mas é assim, a
inveja lança flechas e aguarda para contemplar o estrago. É nesses momentos que
precisamos buscar forças para prosseguir sem pestanejar. Nada de trégua ao
inimigo. A verdade precisa nos acompanhar, mesmo que em um primeiro momento
tenhamos de sacrificar o aplauso.
A inveja destrói as relações e cria embaraços desagradáveis. O invejoso
é pior do que aquele que cobiça. O invejoso não deseja o que é do outro, deseja
apenas que o outro não tenha o que tem, não seja o que é. O invejoso não tem e
não é! Não como uma condição essencial, mas como consequência de sua própria
negação por desperdiçar tanto tempo e tanta atenção à história alheia. Por que
tanto medo de que o outro seja mais visto ou mais aplaudido? O que vale o
instante? A cerimônia? O momento? Os aplausos se revezam, o poder é
transitório, os holofotes iluminam cenários diferentes. Há espaço para todos,
para todos os que se dispõem a trilhar o bom caminho.
Sem querer simplificar esse malfadado sentimento da inveja, arrisco
dizer que ele nasce de vidas não vividas ou vidas que, vividas, correm o risco
de cessar. Naturalmente o invejoso sofre mais do que o invejado, que na maior
parte das vezes não sabe que incomoda tanto. O invejoso perde grande
oportunidade de participar da festa e conviver dentro da sua tenda do amor, com
o que há de melhor no banquete da convivência. Fica na esparrela, enlameado e
sufocado. Diz o que não sente porque não se dá ao luxo de sentir. Está sujo
demais para conhecer a si mesmo. O invejado sofre as consequências de notícias
que chegam da lama e, às vezes, se perde também. Quer entrar na lama para
conversar de igual para igual com aquele que o aviltou. Quer brigar na mesma
arena inóspita. Mas não é preciso nem agradável entrar na lama. Como as pessoas
se perdem quando agridem os agressores!
Que vençamos o medo de não fazer o que tem que ser feito pela ausência
do aplauso ou da compreensão. Em todo ser vivente, pensante, mora uma arte que
dá unicidade à sua ação. É assim com quem tem a disposição de sair da caverna e
enfrentar as feras e as tempestades para simplesmente viver."
- Gabriel Chalita
Tenha essa disposição!
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