domingo, maio 26, 2013

Sobre Invejas e Emulações


"Não se deve perder tempo com os estranhamentos, com os gostos amalucados, com os diz que diz, que aumentam o que é pequeno ou agigantam o que nem sequer existiu.
Quando perdemos tempo com sentenças promulgadas por quem não de direito ou quando contraímos as sobrancelhas, sobressaltados por medos que nem virão, perdemos uma qualidade raríssima, que é a de ver a poética de dentro da tenda do amor.
Damos cor à vida. Incendiamos de fogo nossa existência quando não nos perdemos nos risinhos falsos dos que, por medo, invejam. A experiência da dor que vem da inveja é horrível porque penetra no mundo pantanoso da injustiça. Sofremos por sermos mal compreendidos. Sofremos porque os olhares que nos perseguiram impiedosamente estavam afetados de uma doença cruel e mesquinha que cega as pupilas da verdade. São prematuros os dizeres que desconhecem o essencial. Fofocas, inverdades, crueldades da palavra, armas aparentemente brandas que destroem com vagar, ou ao menos tentam, nossos sonhos. Não temos o poder de dominar o que pensamos. Há muita presença indesejada que habita nossa mente. Mas é assim, a inveja lança flechas e aguarda para contemplar o estrago. É nesses momentos que precisamos buscar forças para prosseguir sem pestanejar. Nada de trégua ao inimigo. A verdade precisa nos acompanhar, mesmo que em um primeiro momento tenhamos de sacrificar o aplauso.
A inveja destrói as relações e cria embaraços desagradáveis. O invejoso é pior do que aquele que cobiça. O invejoso não deseja o que é do outro, deseja apenas que o outro não tenha o que tem, não seja o que é. O invejoso não tem e não é! Não como uma condição essencial, mas como consequência de sua própria negação por desperdiçar tanto tempo e tanta atenção à história alheia. Por que tanto medo de que o outro seja mais visto ou mais aplaudido? O que vale o instante? A cerimônia? O momento? Os aplausos se revezam, o poder é transitório, os holofotes iluminam cenários diferentes. Há espaço para todos, para todos os que se dispõem a trilhar o bom caminho.
Sem querer simplificar esse malfadado sentimento da inveja, arrisco dizer que ele nasce de vidas não vividas ou vidas que, vividas, correm o risco de cessar. Naturalmente o invejoso sofre mais do que o invejado, que na maior parte das vezes não sabe que incomoda tanto. O invejoso perde grande oportunidade de participar da festa e conviver dentro da sua tenda do amor, com o que há de melhor no banquete da convivência. Fica na esparrela, enlameado e sufocado. Diz o que não sente porque não se dá ao luxo de sentir. Está sujo demais para conhecer a si mesmo. O invejado sofre as consequências de notícias que chegam da lama e, às vezes, se perde também. Quer entrar na lama para conversar de igual para igual com aquele que o aviltou. Quer brigar na mesma arena inóspita. Mas não é preciso nem agradável entrar na lama. Como as pessoas se perdem quando agridem os agressores!
Que vençamos o medo de não fazer o que tem que ser feito pela ausência do aplauso ou da compreensão. Em todo ser vivente, pensante, mora uma arte que dá unicidade à sua ação. É assim com quem tem a disposição de sair da caverna e enfrentar as feras e as tempestades para simplesmente viver."

- Gabriel Chalita

Tenha essa disposição!

domingo, maio 05, 2013

Sobre o Saudoso Passado



"Naquele tempo o tempo era mais demorado e as mulheres ainda tinham máquina de costura. Pinturas, bordados e tricôs faziam parte do universo feminino, sem que isso representasse uma atividade de segunda grandeza. O feminismo ainda não havia retirado das mulheres o direito de saberem tecer os seus próprios panos de prato, nem tampouco bordar as suas toalhas de mesa.
Hoje, quando elas querem isso, recorrem às raras especialistas em serviços manuais e pagam caro pela beleza. É que quando desejamos algo que esteja tocado pela sensibilidade, que não tenha sido produzido em série, temos de desembolsar uma boa quantia por isso. Sensibilidade tem custado muito caro aos nossos bolsos.

Naquele tempo, as meninas usavam vestidos rodados, bordados e rendas. Não era crime contra o mundo da moda colocar laços de fita nos cabelos. A infância podia ser evidenciada, mostrada e valorizada. As crianças não tinham a obrigação de se portarem como pequenos adultos, e não existiam sandálias com nome de artistas substituindo os tradicionais sapatinhos brancos de lacinhos cor-de-rosa, que sempre eram guardados depois de não mais servirem aos pés, pois depois da utilidade sempre vem o significado.
As crianças não calçavam plásticos. A vida exigia matérias mais nobres e duradouras. Naquele tempo era mais fácil dizer isso. Havia mais disposição para ver o tempo passar, menos pressa, porque as distâncias eram maiores. Engraçado isso, mas quanto menor a distância, maior é a pressa e ansiedade de chegar. Existia menos asfalto nas estradas e as mulheres ainda bordavam suas próprias toalhas.

As casas tinham alpendres, lugares onde o namoro começava, e tinham também quintais, lugares onde a infância se registrava em pedras e jabuticabeiras.
Naquele tempo, tínhamos de confeccionar nossos próprios sonhos. Ninguém sonhava por nós. Os brinquedos não vinham empacotados, mas despencavam de nossas criatividades
e se materializavam em buchas que viravam bois, em panos que viravam bonecas e em tijolos que riscavam no chão o formato de um garrafão, onde todos se tornavam prisioneiros.
Quem dera nossas crianças ainda continuassem aprisionadas no garrafão riscado no chão. O que hoje as ameaça não é mais uma prisão imaginária, moralmente respeitada como regra compreendida de um jogo, delineada por um risco de tijolo no chão. As prisões de hoje entram pelos olhos e a regra é matar ou morrer. Já não existe espaço para o inocente, para o ingênuo e para o meramente lúdico. A violência ofuscou a simplicidade do mundo infantil. Trocamos os boizinhos feitos de buchas por metralhadoras de plástico, por videogames que excitam os olhos de nossas crianças e retiram delas o sono.

Naquele tempo, as crianças não tinham insônia, porque o cansaço das brincadeiras as levava cedo para a cama.
Naquele tempo, as pessoas podiam se entristecer sem o perigo de serem diagnosticadas como deprimidas. Era possível ficar triste sem culpa, sem ansiedade e sem a pressa do medicamento que a fizesse alegre de novo. Depois da tristeza, sempre retornava a alegria. Não a alegria ansiosa, exageradamente eufórica, irreal,  mas a serena alegria, aquela que antes de ser externada já se esmerou em alimentar o coração e seus silêncios. A alegria que não corresponde às expectativas alheias,  mas que existe pelo simples prazer de ser e estar no coração que a carrega.

Com o processo de superficialização do mundo, tudo tende a se tornar mais exterior e, por isso, mais facilmente falseado. Tristezas também são mais exteriores, sem razão concreta, fundamentada.
Naquele tempo, o coração humano suportava mais as adversidades e os conflitos. Não sei por que, mas sei que era assim. Talvez seja porque, naquele tempo, as rádios tocavam "Chão de estrelas" e outras preciosidades da criação humana, e hoje, não se tem mais tempo para as músicas
daquele tempo.
É que, naquele tempo, os compositores aliviavam a existência humana entretendo e fazendo pensar, e, por isso, as crianças eram crianças e os tristes ainda eram criativos.
Naquele tempo, naquele tempo, lembra?"

- Fábio de Melo