domingo, maio 05, 2013

Sobre o Saudoso Passado



"Naquele tempo o tempo era mais demorado e as mulheres ainda tinham máquina de costura. Pinturas, bordados e tricôs faziam parte do universo feminino, sem que isso representasse uma atividade de segunda grandeza. O feminismo ainda não havia retirado das mulheres o direito de saberem tecer os seus próprios panos de prato, nem tampouco bordar as suas toalhas de mesa.
Hoje, quando elas querem isso, recorrem às raras especialistas em serviços manuais e pagam caro pela beleza. É que quando desejamos algo que esteja tocado pela sensibilidade, que não tenha sido produzido em série, temos de desembolsar uma boa quantia por isso. Sensibilidade tem custado muito caro aos nossos bolsos.

Naquele tempo, as meninas usavam vestidos rodados, bordados e rendas. Não era crime contra o mundo da moda colocar laços de fita nos cabelos. A infância podia ser evidenciada, mostrada e valorizada. As crianças não tinham a obrigação de se portarem como pequenos adultos, e não existiam sandálias com nome de artistas substituindo os tradicionais sapatinhos brancos de lacinhos cor-de-rosa, que sempre eram guardados depois de não mais servirem aos pés, pois depois da utilidade sempre vem o significado.
As crianças não calçavam plásticos. A vida exigia matérias mais nobres e duradouras. Naquele tempo era mais fácil dizer isso. Havia mais disposição para ver o tempo passar, menos pressa, porque as distâncias eram maiores. Engraçado isso, mas quanto menor a distância, maior é a pressa e ansiedade de chegar. Existia menos asfalto nas estradas e as mulheres ainda bordavam suas próprias toalhas.

As casas tinham alpendres, lugares onde o namoro começava, e tinham também quintais, lugares onde a infância se registrava em pedras e jabuticabeiras.
Naquele tempo, tínhamos de confeccionar nossos próprios sonhos. Ninguém sonhava por nós. Os brinquedos não vinham empacotados, mas despencavam de nossas criatividades
e se materializavam em buchas que viravam bois, em panos que viravam bonecas e em tijolos que riscavam no chão o formato de um garrafão, onde todos se tornavam prisioneiros.
Quem dera nossas crianças ainda continuassem aprisionadas no garrafão riscado no chão. O que hoje as ameaça não é mais uma prisão imaginária, moralmente respeitada como regra compreendida de um jogo, delineada por um risco de tijolo no chão. As prisões de hoje entram pelos olhos e a regra é matar ou morrer. Já não existe espaço para o inocente, para o ingênuo e para o meramente lúdico. A violência ofuscou a simplicidade do mundo infantil. Trocamos os boizinhos feitos de buchas por metralhadoras de plástico, por videogames que excitam os olhos de nossas crianças e retiram delas o sono.

Naquele tempo, as crianças não tinham insônia, porque o cansaço das brincadeiras as levava cedo para a cama.
Naquele tempo, as pessoas podiam se entristecer sem o perigo de serem diagnosticadas como deprimidas. Era possível ficar triste sem culpa, sem ansiedade e sem a pressa do medicamento que a fizesse alegre de novo. Depois da tristeza, sempre retornava a alegria. Não a alegria ansiosa, exageradamente eufórica, irreal,  mas a serena alegria, aquela que antes de ser externada já se esmerou em alimentar o coração e seus silêncios. A alegria que não corresponde às expectativas alheias,  mas que existe pelo simples prazer de ser e estar no coração que a carrega.

Com o processo de superficialização do mundo, tudo tende a se tornar mais exterior e, por isso, mais facilmente falseado. Tristezas também são mais exteriores, sem razão concreta, fundamentada.
Naquele tempo, o coração humano suportava mais as adversidades e os conflitos. Não sei por que, mas sei que era assim. Talvez seja porque, naquele tempo, as rádios tocavam "Chão de estrelas" e outras preciosidades da criação humana, e hoje, não se tem mais tempo para as músicas
daquele tempo.
É que, naquele tempo, os compositores aliviavam a existência humana entretendo e fazendo pensar, e, por isso, as crianças eram crianças e os tristes ainda eram criativos.
Naquele tempo, naquele tempo, lembra?"

- Fábio de Melo

terça-feira, abril 09, 2013

A Break

"Hoje me dei um tempo para pensar na vida.
Decidi então que a partir do próximo amanhecer, vou mudar alguns detalhes para ser, a cada novo dia, um pouquinho mais feliz.
Para começar, não vou mais olhar para trás.
O que passou é passado, se errei, agora não vou conseguir corrigir. Então, para que remoer o que passou?
Refletir sobre aqueles erros sim e, então, fazer deles um aprendizado para o meu hoje.
Nem todas as pessoas que amo retribuem meus carinhos como eu gostaria. E daí?
A partir do próximo amanhecer vou continuar a amá-las, mas não vou tentar mudá-las.
Pode ser até que ficassem como eu gostaria que fossem e assim deixassem de ser as pessoas que eu amo.
Isso eu não quero.
Mudo eu.
Mudo meu modo de vê-las.
Respeito seu modo de ser.

A partir do próximo amanhecer, vou lutar com mais garra para alcançar meus objetivos.
Mas vai ser diferente.
Não vou mais responsabilizar a ninguém a minha felicidade.
Não vou parar a minha vida porque o que desejo não acontece, porque uma mensagem não chega, porque não ouço o que gostaria de ouvir.
Vou fazer o meu momento. Vou ser feliz agora.
Terei outros dias pela frente.

A partir do próximo amanhecer, vou agradecer a Deus, todos os dias, por me dar forças para viver, apesar dos meus problemas.
Não mais sofrer pelo que não consigo ter, pelo que não ouço ou não leio, pelo tempo que não tenho e nem sofrer por antecipação, pensando sempre, apenas no pior.
A partir do próximo amanhecer só vou pensar no que tenho de bom.
A partir do próximo amanhecer vou ser eu mesmo.
Nunca mais vou sorrir sem vontade ou falar palavras amorosas por que acho que sei o que os outros querem ouvir.
A partir do próximo amanhecer vou viver minha vida. Sem medo de ser feliz.
Vou continuar esperando.
Não, não vou esquecer ninguém.
Mas, a partir do próximo amanhecer, quando a gente se encontrar, com certeza, vou te dar aquele abraço bem apertado, e com muita sinceridade dizer. "Gosto muito de você e tenho muito amor para lhe dar."


- Rosalva Rela

sábado, abril 06, 2013

The Everyday Beauty


"Ainda bem que o tempo passa!
Já imaginou o desespero que tomaria conta de nós se tivéssemos que suportar uma segunda-feira eterna?
A beleza de cada dia só existe porque não é duradoura. Tudo o que é belo não pode ser aprisionado, porque aprisionar a beleza é uma forma de desintegrar a sua essência.

Dizem que havia uma menina que se maravilhava todas as manhãs com a presença de um pássaro encantado. Ele pousava em sua janela e a presenteava com um canto que não durava mais que cinco minutos. A beleza era tão intensa que o canto a alimentava pelo resto do dia. Certa vez, ela resolveu armar uma armadilha para o pássaro encantado. Quando ele chegou, ela o capturou e o deixou preso na gaiola para que pudesse ouvir por mais tempo o seu canto.
O grande problema é que a gaiola o entristeceu, e triste, deixou de cantar.
Foi então que a menina descobriu que, o canto do pássaro só existia, porque ele era livre. O encanto estava justamente no fato de não o possuir. Livre, ele conseguia derramar na janela do quarto, a parcela de encanto que seria necessário, para que a menina pudesse suportar a vida. O encanto alivia a existência. Aprisionado, ela o possuia, mas não recebia dele o que ela considerava ser a sua maior riqueza: o canto!

Fico pensando que nem sempre sabemos recolher só encanto. Por vezes, insistimos em capturar o encantador, e então o matamos de tristeza.
Amar talvez seja isso: Ficar ao lado, mas sem possuir. Viver também.
Precisamos descobrir, que há um encanto nosso de cada dia, que só poderá ser descoberto à medida em que nos empenharmos em não reter a vida.
Viver é exercício de desprendimento. É aventura de deixar que o tempo leve o que é dele, e que fique só o necessário para continuarmos as novas descobertas.
Há uma beleza escondida nas passagens. Vida antiga que se desdobra em novidades. Coisas velhas que se revestem de frescor. Basta que retiremos os obstáculos da passagem. Deixar a vida seguir. Não há tristeza que mereça ser eterna. Nem felicidade. Talvez seja por isso que o verbo dividir nos ajude tanto no momento em que precisamos entender o sentimento da tristeza e da alegria. Eles só são suportáveis à medida em que os dividimos. E enquanto dividimos, eles passam, assim como tudo precisa passar.
Não se prenda ao acontecimento que agora parece ser definitivo. O tempo está passando. Uma redenção está sendo nutrida nessa hora. Abra os olhos. Há encantos escondidos por toda parte. Presta atenção. São miúdos, mas constantes. Olhe para a janela de sua vida e perceba o pássaro encantado na sua história. Escute o que ele canta, mas não caia na tentação de querê-lo o tempo todo só pra você. Ele só é encantado porque você não o possui.
E nisto consiste a beleza desse instante: o tempo está passando, mas o encanto que você pode recolher será o suficiente para esperar até amanhã, quando o passaro encantado, quando você menos imaginar, voltar a pousar na sua janela."

(Pe. Fábio de Melo)

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

Count On Me

Em um mundo em provas como o nosso, sabe-se quão árdua é a possibilidade de encontrar alguém com quem possamos contar incondicionalmente. Este texto, escrito há mais de cem anos, externaliza bem a relação de fraternidade que um dia dominará o mundo.

"Conte comigo, mesmo sem contar a mim tanta coisa que lhe pesa no coração, que lhe amargura e resseca o fundo d'alma.
Conte, nas horas mais abandonadas da vida, quando o olhar, vagando em derredor, só divisar deserto.
Conte comigo, mesmo sem vontade de contar com ninguém ou certo de que não vale a pena contar com mais ninguém, nesta vida.
Conte comigo, devagarinho, deixando que a boa vontade vá dizendo, sem nada forçar, à medida em que acreditar.
Conte, durante as agonias, que, de um tempo para cá, não deixam em paz seu cansado coração, pois o bom da vida consiste em encontrar um amigo.
Conte, nas horas inesperadas, quando as tempestades despregam repentinas e tombam por cima da sua cabeça triste.
Conte comigo, para reaprender a cantar, durante a vida, e a viver de serenas e pequeninas felicidades.
Conte comigo, para eu ajudá-lo a ter rosto bom e quieto, ao menos na presença dos filhinhos menores, que vivem dos rostos abertos.
Conte, para auxiliá-lo no amargo carregamento da cruz.
Conte comigo, para ficar sabendo, de experiência, que há na vida muita coisa linda, coisa escondida, prêmio de quem se venceu na dor.
Conte, para triunfar, no ritmo vagaroso do dever, na cadência da paz diária, aprendendo a teimar com as teimas da vida madrasta.
Conte, que são largos os caminhos da vida, esperando os passos duplos de dois amigos que vão, na direção da conversa.
Conte comigo, para saber olhar ao alto, buscando a face de um Pai.
Conte, mesmo para não se entregar aos desânimos e desencantos, de quem anda cheio da vida, do começo ao fim.
Conte comigo, que venceremos juntos.
Conte, que a vida tem de ser bela, criando nós as belezas, de dentro para fora, obrigação do coração, missão da Fé.
Conte comigo, conte sempre, teimando com você mesmo, que não quer saber de mais nada, ofendido que foi, descrente que anda.
Conte quando, olhando para a frente, não sente vontade de andar; olhando para trás, tem medo do caminho que andou.
Conte comigo, para que tenha valor e beleza cada passo seu, cada dia da vida, cada hora dentro de cada dia.
Conte, conte mesmo, sabendo que Deus nos deu a missão de fazer companhia aos desacompanhados corações dos homens."


(Allan Kardec)

terça-feira, janeiro 01, 2013

Sobre A Crítica



Dando início a uma série de reflexões acerca do comportamento humano, escolhi a crítica.

Todo fim de ano vemos pessoas reacessando memórias do ano que se finda e vemos trocas de desejos de muitas coisas que julgamos faltar no ser alvo dos votos ou que julgamos essenciais à felicidade do mesmo, tais como amor, paz, felicidade, saúde, dinheiro, etc. Muito natural pra mim ver essas coisas, com as quais estou acostumado a lidar. Porém, um fato vem me chamando a atenção: a crítica de muitas pessoas sobre esse reacesso a memórias e sobre os votos de fim de ano. Vamos por parte, ao analisar as críticas acerca da retrospectiva do ano vi inúmeros comentários do tipo “reclama o ano inteiro e depois vem agradecer pelo ano bom”. É claro que todos nós passamos por maus momentos ao longo de um ano, um ano é um período demasiadamente longo para que tudo seja flores e momentos de tristeza e angústia fazem parte da vida de todos, e caso alguém sinta a vontade e/ou necessidade de compartilhar o seu pesar de alguma forma, onde o mal nisso? Se a pessoa sentir-se-á melhor desta forma e isso auxiliará no processo de atenuação de sua mágoa não vejo condenação aceitável sobre tal ato. Vivemos em uma cultura onde não cultuamos o sofrimento (ainda vou escrever sobre isso), logo, quando alguém pretende acessar as memórias de um ano, ela tende a ser grata pelos momentos bons, não há porque reviver memórias que lhe são amargas, logo, tal comentário dos críticos não apresenta um fundamento lógico. Quanto aos votos de fim de ano, me deparei com críticas acerca da fidedignidade dos sentimentos. O ser humano é um ser muito complexo, e complexa é também a natureza dos seus sentimentos, pois a relação interpessoal é influenciada por fatores imensuráveis e com uma subjetividade infinita, logo analisar a fidedignidade dos sentimentos de alguém é uma tarefa assaz arriscada e obviamente tal fato, sendo feito de uma forma generalizada, é uma afronta ao raciocínio lógico e já não merece mais profundas análises e comentários. 

Apesar de discordar em muitos pontos com essas observações, isso não me surpreendeu, e muito me fez pensar sobre a natureza da crítica. Vejamos algumas conclusões. Há aquela crítica onde o crítico de fato acredita no que está falando, o que vou chamar de “crítico convicto”, e nesse caso ele persistirá na garantia de sua razão. E dentro desse há os que têm a sua razão sem uma análise dos porquês de sua crítica, chamá-los-ei “críticos cegos, surdos, porém não mudos”; e os que têm a sua razão fundamentada em um pensamento acerca das razões que o levaram a tal convicção, chamá-los-ei “críticos racionais”. Os primeiros não são dignos de análises acuradas acerca de seus comentários, uma vez que os mesmos não passam pela razão, e no mundo fora da razão a análise não é bem-vinda. Os últimos podem ser subdivididos em “críticos racionais flexíveis”, que são os que estão abertos a comutas em seu ponto de vista; e em “críticos racionais inflexíveis”, que são os radicais, que acreditam em suas verdades de uma forma absoluta. Outra forma de crítica, em oposição à do “crítico convicto” é a crítica oriunda dos que criticam sem acreditar de fato em suas razões, por vezes têm até uma opinião opoente, chamá-los-ei de “críticos dúbios”, e os subdivido em “críticos dúbios conscientes”, que são os que têm ciência de sua falsa crítica; e os “críticos dúbios inconscientes”, que são os que não têm essa ciência, e agem de forma a se enganar sobre a sua verdade. Os “críticos dúbios” merecem uma atenção especial, pois quais fatores poderiam ser responsáveis para que uma pessoa faça uma crítica sem acreditar de fato nela? Vejo nisso uma forma de radicalismo, dentre os inúmeros fatores que podem originar tal comportamento, e esse radicalismo consistiria em estar-se radicalmente apegado à sua verdade, ao ponto de não abandoná-la, mesmo verificando sua inadequação. Logo, em síntese, temos:


- Crítico Convicto
                - Crítico Convicto Cego
                - Crítico Convicto Racional
                               - Crítico Convicto Racional Flexível
                               - Crítico Convicto Racional Inflexível
- Crítico Dúbio
                - Crítico Dúbio Consciente
                - Crítico Dúbio Inconsciente


E a ditosa “crítica construtiva”? Acredito que só podemos encontrá-la dentro dos críticos convictos racionais flexíveis, pois para que a crítica resulte em algo positivo ela deve ter uma base em que se fundamentar, daí a convicção racional, e, outrossim, tem de estar aberta a modificações, caso se façam necessárias.

Meu objetivo aqui não é condenar a crítica, e tampouco poderia fazê-lo, pois seria uma análise assaz antagônica, uma vez que a condenação já é uma forma de crítica. Logo, não a condeno, apenas levo à reflexão o fato de haver formas mais ou menos justas de fazê-la. Vale analisar que tipo de crítico temos sido.

É claro que isso é apenas um ensaio sobre a crítica e suas inúmeras facetas. Poderíamos divagar perenemente sobre esse comportamento humano. De forma cômica, mas muito adequada, advirto aos que discordam desta postagem que podem criticá-la, mas, claro, de uma forma convicta, racional e flexiva.

A Good Year


2013! Mais um ano começando. Tempo de fazer uma retrospectiva em nossas vidas. E neste blog eu tenho muitas lembranças armazenadas, afinal, nesse novo ano completo 6 anos de blog, e essas reminiscências que encontro aqui são o fator principal que me fazem permanecer a postar. É maravilho rever postagens antigas e me lembrar do que me motivou a criá-las. Comecei a postar aqui aos 16 anos de idade, em exata uma semana completo 22, e aqui deixei as pegadas de toda essa minha transição ao longo desses anos, por isso resolvi mudar o nome do blog de “Who Are We” (bem piegas e pueril por sinal) para “Footprints In The Sand” (bem dramático, porém divertido). Mas, o foco aqui hoje não é o meu blog. Falarei na próxima postagem sobre algo mais profundo, voltando, finalmente, às minhas raízes!

quarta-feira, dezembro 26, 2012

Upcoming Posts

Decidi que a partir do próximo ano vou tentar fazer uma postagem mensal divagando sobre algum tópico específico. O título será sobre o tema escolhido.
Assim, busco resgatar duas coisas: esse blog e minha aptidão para escrever.

2013, here we come!