Dando início a uma série de reflexões acerca do comportamento humano, escolhi a crítica.
Todo fim de ano vemos pessoas reacessando memórias do ano
que se finda e vemos trocas de desejos de muitas coisas que julgamos faltar no
ser alvo dos votos ou que julgamos essenciais à felicidade do mesmo, tais como
amor, paz, felicidade, saúde, dinheiro, etc. Muito natural pra mim ver essas
coisas, com as quais estou acostumado a lidar. Porém, um fato vem me chamando a
atenção: a crítica de muitas pessoas sobre esse reacesso a memórias e sobre os
votos de fim de ano. Vamos por parte, ao analisar as críticas acerca da
retrospectiva do ano vi inúmeros comentários do tipo “reclama o ano inteiro e
depois vem agradecer pelo ano bom”. É claro que todos nós passamos por maus
momentos ao longo de um ano, um ano é um período demasiadamente longo para que
tudo seja flores e momentos de tristeza e angústia fazem parte da vida de
todos, e caso alguém sinta a vontade e/ou necessidade de compartilhar o seu
pesar de alguma forma, onde o mal nisso? Se a pessoa sentir-se-á melhor desta
forma e isso auxiliará no processo de atenuação de sua mágoa não vejo
condenação aceitável sobre tal ato. Vivemos em uma cultura onde não cultuamos o
sofrimento (ainda vou escrever sobre isso), logo, quando alguém pretende acessar
as memórias de um ano, ela tende a ser grata pelos momentos bons, não há porque
reviver memórias que lhe são amargas, logo, tal comentário dos críticos não
apresenta um fundamento lógico. Quanto aos votos de fim de ano, me deparei com
críticas acerca da fidedignidade dos sentimentos. O ser humano é um ser muito
complexo, e complexa é também a natureza dos seus sentimentos, pois a relação
interpessoal é influenciada por fatores imensuráveis e com uma subjetividade
infinita, logo analisar a fidedignidade dos sentimentos de alguém é uma tarefa assaz
arriscada e obviamente tal fato, sendo feito de uma forma generalizada, é uma
afronta ao raciocínio lógico e já não merece mais profundas análises e
comentários.
Apesar de discordar em muitos pontos com essas observações,
isso não me surpreendeu, e muito me fez pensar sobre a natureza da crítica.
Vejamos algumas conclusões. Há aquela crítica onde o crítico de fato acredita
no que está falando, o que vou chamar de “crítico convicto”, e nesse caso ele persistirá
na garantia de sua razão. E dentro desse há os que têm a sua razão sem uma
análise dos porquês de sua crítica, chamá-los-ei “críticos cegos, surdos, porém
não mudos”; e os que têm a sua razão fundamentada em um pensamento acerca das
razões que o levaram a tal convicção, chamá-los-ei “críticos racionais”. Os primeiros
não são dignos de análises acuradas acerca de seus comentários, uma vez que
os mesmos não passam pela razão, e no mundo fora da razão a análise não é
bem-vinda. Os últimos podem ser subdivididos em “críticos racionais flexíveis”,
que são os que estão abertos a comutas em seu ponto de vista; e em “críticos
racionais inflexíveis”, que são os radicais, que acreditam em suas verdades de
uma forma absoluta. Outra forma de crítica, em oposição à do “crítico convicto”
é a crítica oriunda dos que criticam sem acreditar de fato em suas razões, por
vezes têm até uma opinião opoente, chamá-los-ei de “críticos dúbios”, e os
subdivido em “críticos dúbios conscientes”, que são os que têm ciência de sua
falsa crítica; e os “críticos dúbios inconscientes”, que são os que não têm
essa ciência, e agem de forma a se enganar sobre a sua verdade. Os “críticos
dúbios” merecem uma atenção especial, pois quais fatores poderiam ser responsáveis para
que uma pessoa faça uma crítica sem acreditar de fato nela? Vejo nisso uma
forma de radicalismo, dentre os inúmeros fatores que podem originar tal
comportamento, e esse radicalismo consistiria em estar-se radicalmente apegado
à sua verdade, ao ponto de não abandoná-la, mesmo verificando sua inadequação.
Logo, em síntese, temos:
- Crítico
Convicto
- Crítico Convicto Cego
- Crítico Convicto Racional
- Crítico Convicto
Racional Flexível
- Crítico Convicto
Racional Inflexível
- Crítico
Dúbio
- Crítico Dúbio Consciente
- Crítico Dúbio Inconsciente
E a ditosa “crítica
construtiva”? Acredito que só podemos encontrá-la dentro dos críticos convictos
racionais flexíveis, pois para que a crítica resulte em algo positivo ela deve
ter uma base em que se fundamentar, daí a convicção racional, e, outrossim, tem
de estar aberta a modificações, caso se façam necessárias.
Meu objetivo aqui não é condenar a crítica, e tampouco poderia fazê-lo, pois seria uma análise assaz antagônica, uma vez que a
condenação já é uma forma de crítica. Logo, não a condeno, apenas levo à reflexão
o fato de haver formas mais ou menos justas de fazê-la. Vale analisar que tipo
de crítico temos sido.
É claro que isso é apenas um ensaio sobre a crítica e suas
inúmeras facetas. Poderíamos divagar perenemente sobre esse comportamento
humano. De forma cômica, mas muito adequada, advirto aos que discordam desta
postagem que podem criticá-la, mas, claro, de uma forma convicta, racional e
flexiva.


